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Confins da terra: África?

Entrevista com Paulo Henrique Feniman
Publicado em 23.08.2016

"Deus, nosso Salvador [...] deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade."
1 Timóteo 2.3-4 

"Resumindo, a igreja deve orar por todos e pregar a todos. Por quê? Crisóstomo, um dos Pais da Igreja, nos dá a resposta: "Para imitar a Deus!" Como o desejo de Deus e a morte de Cristo dizem respeito a todos, então a missão da igreja também deve ser para todos. Cada igreja é parte de uma comunidade local, mas deve ter uma perspectiva global", esta parte do texto de John Stoot nos faz desejar saber mais sobre trabalhos missionários como da MIAF.

Africa Inland Mission (AIM) é uma missão cristã de envio para os povos da Africa com escritórios na Austrália, Canadá, Europa,Hong Kong, Coreia, Nova Zelandia, EUA, África do Sul e outros países africanos, e a América do Sul.

Para saber mais desta Instituição na América do Sul, onde é conhecida por MIAF (Missão para o Interior da África) o Instituto Jetro conversou com o seu diretor executivo, Paulo Henrique Feniman.

Paulo Feniman é graduado em Teologia pela FTSA - Faculdade Teológica Sul Americana e em Computação Gráfica pela UNOPAR - Universidade Norte do Paraná. Preletor em conferências e congressos missionários no Brasil e América do Sul. Atualmente é Diretor Executivo da MIAF - Missão para o Interior da África,  onde coordena o treinamento e envio de missionários entre povos africanos, membro de IPA - International Partnering Association e parte da junta diretiva do COMIBAM - Cooperação Ibero-Americana de Missões. É casado com Patrícia, pai de Felipe e Gabriela.

Paulo Henrique Feniman

Instituto Jetro - Poderia falar sobre a história da AIM? E a criação do escritório da América do Sul, o qual é diretor?

Paulo - O trabalho da AIM começou há mais de 120 anos atrás, mas especificamente em 1895, onde Peter Cameron, nosso fundador e outros cinco homens decidiram entrar no interior da costa do Quênia. Eles viajaram a pé, às vezes de camelos, utilizando ajudantes locais por 482 km pelo calor africano para montar a primeira base missionária. Atualmente estamos presente em 7 países por meio de escritórios de mobilização e em mais de 25 países do continente Africano por meio de nossas bases missionárias.

No Brasil, a AIM iniciou suas atividades em 1985. No início o projeto era mobilizar a igreja brasileira para trabalhar entre os países de língua portuguesa na África, mas com o passar dos anos Deus começou a levantar pessoas de diferentes lugares para servirem em diferentes países da África. Em 2010 o escritório do Brasil passou a ser responsável pela mobilização missionária em toda América do Sul.

Instituto Jetro -  Quais são os projetos e atividades que são desenvolvidas pela MIAF e quantos missionários brasileiros estão no campo?
Paulo - 
O foco da MIAF é a plantação de igrejas e treinamento de líderes, mas para o desenvolvimento destes projetos, diferentes ministérios tem sido desenvolvidos nas áreas de educação, saúde, saneamento básico, inclusão social, entre outros. Hoje contamos com mais de 60 missionários sul-americanos servindo em diferentes ministério em mais de 10 países diferentes da África.

Instituto Jetro - A missão de desenvolver "igrejas cristocêntricas entre os povos africanos" só pode ser alcançada se houver o desenvolvimento de cristãos maduros na fé. Qual a estratégia da MIAF para isso, para formar líderes nacionais? Como preparar jovens africanos para o desafio de evangelização e pastoreio em seu país?
Paulo - 
Não há dúvida que sem a presença de líderes maduros, não será possível atingir essa missão, por isso MIAF está focada em ações diretas nos próximos 5 anos em ações diretas que visão mobilizar e treinar 400 missionários nacionais (africanos) para o avanço da obra missionária e equipar mais de 4000 pastores e líderes com visão missionária para os povos não alcançados do continente. O grande desafio está em criar metodologias de treinamento que possam atender as necessidades locais. Hoje MIAF está envolvida com treinamentos acadêmicos como bacharel, mestrado em teologia, mas continua atenta aos treinamentos informais que alcançam àqueles que vivem nas mais longínquas tribos. O investimento nos jovens é fundamental e necessário, se considerarmos o fato de que cerca de 50% da população africana tem menos de 18 anos. O discipulado é a melhor ferramenta para a preparação de jovens para os diversos desafios ministeriais na África.

Instituto Jetro -  O interior da África tem os seus perigos: perseguição religiosa, guerras, fome e doenças; também tem suas particularidades culturais e religiosas. Diante destes desafios, como preparar vidas para servir? Qual o perfil dos missionários da MIAF? Há algum tipo de exigência específica em termos de competências?
Paulo - 
Costumo dizer que os lugares menos alcançados pelo evangelho nos dias de hoje na África, são os lugares mais difíceis. Difíceis do ponto de vista religioso, político e geográfico. Isso significa que o preparo missionário não pode ser de forma nenhuma ignorado. Ainda há uma visão muito romântica acerca de missões, e nossa função como organização é dar todas as ferramentas possíveis para que o trabalho missionário seja efetivo, mesmo em contextos de difícil acesso. Temos uma expressão que gostamos de usar aqui que é países de contexto criativo, isso porque cremos que não há país fechado ao evangelho, pois não há nada impossível para Deus, o que precisamos é de criatividade para o estabelecimento de nossos obreiros. No passado especialmente em ministérios no norte da África, muitas organizações inclusive a MIAF enviava missionários de formação para se envolverem em ministérios de "Fazedores de Tendas" ou BAM - Business as Mission (Negócio em Missões). Então descobrimos que eles não sabiam absolutamente nada sobre o mercado empresarial, apesar de terem boa formação missiológica, depois começamos a enviar homens e mulheres de negócio, só que sem bom treinamento missiológico, e continuamos tendo problemas. Hoje creio que aprendemos melhor com nossos erros e temos enviado pessoas com habilidades específicas, mas com bom treinamento missiológico. A MIAF hoje tem oportunidades nas mais diversas áreas que se possa imaginar, de piloto de avião à professor primário, de médico a professor de teologia, todos eles focados em plantar igrejas entre povos não alcançados. Os critérios para um missionário são muito simples, além das exigências profissionais e missiológicas que dependem do lugar onde ele vai servir, nós sempre estamos a busca de pessoas que alimentem um espírito de aprendiz e de humildade, dispostos a trabalhar lado a lado com nossos irmãos africanos.

Instituto Jetro - "Jesus disse que deveríamos compartilhar o Evangelho de Jesus Cristo com todos: toda tribo, língua e nação. Jesus também disse que teríamos pobres e doentes no nosso meio e que temos que cuidar deles". O número de pessoas que desejam servir como missionários tem caído? O que você pensa a respeito?
Paulo - 
Eu não diria que o número caiu, o que eu penso é que ele não aumentou na mesma intensidade que cresceu a Igreja Brasileira. E isso pode ser explicado de inúmeras formas. A igreja tem falado muito pouco ou quase nada sobre os povos não alcançados com o evangelho. Desafio nossos leitores a fazerem um teste, peça para que algumas pessoas enumerem três povos não alcançados da África por exemplo e você verá que poucos lhe darão uma resposta clara. Nós também não pregamos mais sobre o que chamo de os 4S fundamentais da missão: SACRIFÍCIO, SOFRIMENTO, SERVIÇO E SUBMISSÃO. Temos escutado um evangelho muito egocêntrico, onde a relação Deus/homem é muito mais voltada para o que Deus pode fazer por mim do que ao inverso, isso sim tem afastado os vocacionados. Outro fator que vale a pena mencionar aqui é o fato da igreja achar que tudo é missão. A missão como abordamos do ponto de vista bíblico sempre está vinculada a proclamação verbal do evangelho. Ajudar o pobre o doente é importante e deve ser feito, mas sem a pregação do Evangelho é só ação social.

Instituto Jetro - Você acredita que os pastores estão sensíveis para perceber nas suas igrejas os que são chamados para servir como missionários transculturais? Qual o papel que os pastores deveriam exercer sobre os que são vocacionados? E o papel da Igreja?
Paulo -
Pois é, vamos lembrar que de acordo com Bíblia todos somos vocacionados, gostemos ou não. A diferença aqui é que a Bíblia fala que alguns entre todos esses, são chamados especificamente para ministérios específicos que Deus mesmo nos dá. O apóstolo Paulo em efésios explica bem isso ao dizer que uns são chamados para apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. É papel da igreja reconhecer e ajudar aqueles que se sentem chamados para ministérios específicos dando-lhes orientação e apoio até que possam exercer seus ministérios. No caso daqueles que são chamados para ministérios transculturais é preciso que tanto as igrejas, bem como os pastores saibam que eles têm um papel fundamental como enviadores. A primeira etapa sem dúvida é a escolha de uma organização que tenha experiência no campo ou ministério que se pretende executa e depois é preciso estar atento a áreas de apoio extremamente importantes como oração, logística, sustento financeiro, cuidado pastoral, etc. É verdade que muitas destas áreas são compartilhadas com as agências, mas não podemos esquecer que o envio missionário antes de tudo é uma tarefa da igreja e não das agências missionárias, as agências neste sentido existem para colaborar através da sua experiência e logística no campo.

Instituto Jetro - Suas considerações finais.
Paulo - 
Queria só reafirmar que a participação da igreja local no ministério missionário é de suma importância. Não existe missão sem que haja igrejas envolvidas no processo. Por mais dedicado que possa ser o missionário, por mais correta que seja a agência de missões, se a igreja local não participar, não se envolver, não assumir seu chamado missionário, nada do que planejarmos ou fizermos prosperará.

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Título do artigo: Confins da terra: África?
Autor: Paulo Henrique Feniman


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