A Europa pós Reforma - Entrevistas - Instituto Jetro

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A Europa pós Reforma

Roque N. Albuquerque
Publicado em 30.10.2017

A Reforma Protestante aconteceu por um conjunto de fatores. Da mesma forma, o esfriamento da Europa para o cristianismo pós-reforma.

Por conta dos 500 anos da Reforma Protestante, encaminhamos algumas perguntas para o Pr. Roque N. Albuquerque, com Doutorado em Língua Grega, CBTS nos Estados Unidos e Doutorado em Estudos da Linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é pastor da Igreja Batista do Calvário em Fortaleza e professor efetivo no Instituto de Humanidades e Letras da Universidade Pública Federal UNILAB no Ceará.

Roque Albuquerque

Instituto Jetro - Podemos dizer que é mais visível/crítico na Europa, os crentes nominais (crer de fora da igreja) e os liberais (os que descreem de dentro da igreja) ou podemos dizer que são características marcantes das igrejas históricas no mundo todo?  Roque - Os 500 anos estão sendo lembrados pelo mundo inteiro, mas é bom notarmos que os protestantes históricos (mais do que os não históricos) são os que mais estão celebrando. A rigor creio que aconteceu Reformas no plural, seguindo Alister McGrath, que podem ser divididas em quatro ou até mais categorias (Luteranos, Igrejas Reformadas, Anabatistas, Contra-Reforma).

A história não se trata de movimentos estáticos, grandes centros do cristianismo no primeiro século desapareceram pouco tempo depois, assim também na Europa. É muito difícil atribuir o enfraquecimento do cristianismo pós-reforma a uma causa em particular. Era preocupação de Israel que uma geração passasse conhecimento a outra, do contrário, a lei do Senhor poderia se tornar estranha (Salmo 78). A Reforma escocesa mudou para os Estados Unidos e conseguiu fazer de lá seu lugar sólido. O sonho de João Calvino era fazer do Brasil o paraíso dos protestantes. Com as guerras na Europa entre católicos e protestantes, os anseios de liberdade e paz para adorar a Deus voltaram-se para a Baia de Guanabara em 1555, mas terminou com frustração e morte de milhares de índios calvinistas. Outra tentativa de se criar um paraíso protestante no Brasil ocorreu com a Igreja Reformada neerlandesa em Pernambuco no século XVII (16625-1645). Pedro Poty, um índio potiguar sonhava com um Brasil livre para cultuar a Deus e era fonte inspiradora. Os índios foram educados e muitos estudaram em Amsterdã para voltarem para o Nordeste tornando-se ministros (veja o livro da prof. Jaquelini de Sousa - A Primeira Igreja Protestante do Brasil, editora Mackenzie). A relação do evangelho da Igreja Reforma acontece no Brasil antes mesmo dos Estados Unidos.

Existem princípios que são parte essencial da Reforma Protestante que não poderia e não pode garantir que eles estavam sempre em equilíbrio. Hegel viu a Reforma como um passo rumo à liberdade que mais tarde virará a autonomia do homem, inclusive a autonomia de Deus. A ideia de que a Reforma gerou a secularização é ingênua. Brad Gregory em seu livro The unintended Reformation: how a religious revolution secularize society (A Reforma acidental: como uma revolução religiosa secularizou a sociedade) faz uma acusação séria à igreja pós-reforma. Seguindo o Atlas 2010 existem 38 mil denominações diferentes do mundo e tudo isso ocorreu porque "os que rejeitaram Roma discordaram sobre o que dizia a Palavra de Deus"(op. cit. p. 327).

Outros acusam a reforma de geradora do ceticismo, aqui a culpa para esses é do Sola Scripturae, pois cada crente agora podendo interpretar a Bíblia sozinho geraria o caos. Claro que quando Lutero defende o sola ele não está simplesmente dizendo que cada um faz o que quer com a Bíblia, mas sim que o magistério católico que alegava autoridade sobre a Bíblia precisava se colocar debaixo dela.

Finalmente é bom lembrarmos que a Reforma de Lutero primariamente era uma reforma da academia e enfatiza a reforma doutrinária primariamente, enquanto a reforma da Suíça era uma reforma da sociedade e de enfático cunho  moral. Controlar uma sociedade a partir de forças externas pode garantir reforma para algumas poucas gerações, mas sem uma mudança interna de transformação, tudo pode desaparecer com facilidade. Genebra tentou equilibrar esse aspecto interno enquanto Lutero começa pela mudança acadêmica, defendo a justificação pela fé.

Instituto Jetro - A religião como tradição, o ministério como profissão, o não-discipulado das gerações você acredita que foram esses os motivos para a descaracterização e decadência das Igrejas evangélicas na Europa?
Roque - A reforma não se trata de uma fórmula passada de um padrão, mas é uma recuperação de acordo com a Palavra Viva e Ativa das Escrituras. A lealdade cristã não diz respeito primariamente a um objeto de tradição específica, nossa lealdade é ao evangelho, isto é, a Cristo, pois ele é o Evangelho.

Duas coisas para responder a pergunta: a falta de conservação de uma tradição de interpretação das Escrituras sólida contribuiu para decadência na Europa que abraçou um tradição religiosa vazia e a falta de um equilíbrio em estudos e afeições (como encontradas em Jonatha Edwards) podem ter contribuído para a decadência das igrejas evangélicas na Europa. O ministério professional sem afeições é um corpo sem alma, por isso a importância das afeições religiosas. A relação com discipulado e a reforma é de sua importância, pois quando falamos em Reforma (recuperação), essa recuperação não é um mero retorno ao passado (não se pode fazê-lo). Recuperar é olhar para trás, criativamente, mas para seguir adiante com muita fé, e isso envolve discipulado intenso.

Instituto Jetro - Muitas universidades foram criadas protestantes como: Havard, Yale, Princeton, Cambridge, Oxford, Copenhangue, entre outras, elas ainda dão uma contribuição especificamente cristã às suas comunidades?
Roque - Essa universidades que eram seminários na origem tinham o alvo de formar pastores para a obra do ministério, hoje elas vivem mais para alimentar a academia e não a igreja. Algumas dessas ainda conservam um departamento de estudos da religião ou de teologia, mas muito mais relacionado com o liberalismo que com uma teologia bíblica.

Instituto Jetro - Há os remanescentes fiéis na Europa? Você percebe algum movimento de reavivamento?
Roque - Muito pouco remanescente fiel. A Escócia tem ainda universidade importantes que contribuem muito para o estudo teológico tanto em Edimburgo quanto em outros locais. No entanto, é bom lembrar que são muito poucos. A Europa escolheu dizer não ao cristianismo protestante e em certo sentido católico também e abraçou um progressismo para darem as boas vindas ao islamismo. Eles escolheram, eles estão pagando o preço, pergunte a França.

Instituto Jetro -  Alguns acreditam que precisamos de uma Nova Reforma, mas se a Igreja vivesse os princípios da Reforma Protestante de fato não seria a Reforma de que ainda precisamos reafirmar?
Roque - A Reforma foi um recepção do evangelho bíblico, especialmente aquele que abraça o apóstolo Paulo com suas minúcias em primeiro lugar, e em seguida os pais da igreja, especialmente Agostinho. Paulo diz que transmitiu o que recebeu (1 Cor 11:23) a recuperação é uma maneira de passar adiante a fé entregue aos santos. Observe que tem uma tradição bíblica e não humana, mas passa de santos a santos.

Instituto Jetro - Quando olhamos para Grã-bretanha, Alemanha, Canadá e Austrália, vemos a reduzida frequência aos templos cerca de 3 a 5% dos seus membros, isso levou muitas igrejas a fecharem suas portas e venderem seus templos para shoppings, museus, cinemas, etc... Em sua opinião, a crise migratória traz desafios maiores, pois há o reforço da islamização? Ou traz mais abertura para evangelização?
Roque - Tudo depende como essa geração presente encara a coisa e abraça o compromisso do evangelho. Podem chegar milhares de pessoas e a igreja presente negligenciar sua identidade e se calar diante de tantas oportunidades. No entanto, uma geração de crentes podem mudar a história do mundo. Sou fruto do evangelho de grupo de jovens de uma classe de escola dominical em Nova Iorque que decidiu largar tudo e vir para o Brasil no final dos anos 30. Esses homens e mulheres deixaram um legado bíblico, teológico incomensurável.

Instituto Jetro - Quais os desafios para a igreja brasileira ao observar a história da Reforma Protestante e a Europa de hoje?
Roque - Eu ainda acho que o Brasil presencia um certo avivamento, há uma fome pelos solas como diretrizes e defesa da interpretação bíblica. O maior desafio do Brasil é a crise de legitimação de autoridade teológica: autoridade teológica de quem? Concordo com Kevin Vanhoozer quando diz que "o tipo de protestantismo que deve continuar a existir não é o que encoraja a autonomia individual ou o orgulho coletivo, mas o que encoraja os membros da igreja a se universo friamente ao evangelho e uns aos outros"(Autoridade Bíblica Pós-Reforma). O futuro da igreja brasileira depende da sustentação dos solas numa relação trinitariana. Eu preciso conectar cada sola com as pessoas da trindade para não esvaziar os solas da trindade, nem separar a trindade de suas relações conosco - Sola Gratia, Sola Scripturae, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria se relacionam com o Deus Triúno, compreende?

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