Entrevistas

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Os desafios do duplo ofício


Rodolfo Montosa é diretor e um dos fundadores do Instituto Jetro. Além de ministrar cursos e palestras nas áreas de gestão ministerial e liderança, é colunista da Revista Igreja e participa do Conselho da Editora Mundo Cristão e da Missão Portas Abertas. Ele também atua como empresário no setor de serviços (como diretor presidente do Consórcio União) e é o atual presidente da ABAC - Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios.

Mesmo com uma agenda de compromissos tão desafiadora como esta, ele não deixou para trás o seu chamado ministerial que culminou com a recente ordenação como pastor auxiliar da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Londrina. Nesta entrevista Rodolfo Montosa nos dá detalhes desta trajetória singular e comenta sobre como lida com o desafio de conciliar trabalho secular e ministério.

 foto de Rodolfo Garcia MontosaO que o levou a fazer a graduação em teologia? Você poderia descrever seu ministério antes e depois da teologia?
Rodolfo
 - Em minha adolescência, tinha o forte chamado para o ministério pastoral, ao mesmo tempo em que me sentia vocacionado também para uma carreira empresarial. Aos 15 anos quando tive que decidir qual faculdade prestar, estava em meio a esse dilema: ser empresário ou pastor? Pensei, na época, ‘meu pai é autoridade sobre minha vida, logo, sua palavra será decisiva nesse momento’. Tivemos então uma conversa quando ele me orientou a fazer uma faculdade de administração, desenvolver-me profissionalmente e, depois, preparar-me para o ministério. Assim aconteceu. Vinte e cinco anos depois fui ordenado pastor. Ao longo desse período, Deus me permitiu uma experiência de vida única que tem sido muito útil no exercício do ministério.

Sempre estive envolvido com a Igreja, participando e contribuindo com a liderança. Contudo, a realização do curso de Teologia ajudou-me a aprofundar as raízes da fé, fundamentando ainda mais na Palavra de Deus, refinando o sentido da missão com foco em Cristo e no seu povo escolhido. Mas o grande destaque que faço é que pude realizar esse sonho juntamente com minha esposa que também se graduou em Teologia, além da Medicina.

Buscar exercer o pastorado é o único caminho depois de um curso de teologia? Como foi o processo entre a sua graduação e a ordenação?
Rodolfo
 - Quando cursei Teologia não pretendia assumir o ministério pastoral, propriamente. Entendo que muitos ministérios podem ser desenvolvidos que não somente o pastoral, mas qualquer que seja precisa de uma base sólida para seu exercício. Ao final do curso de graduação houve a iniciativa do Instituto Jetro. Ao longo desses quase seis anos pudemos atender várias igrejas e ministérios contribuindo para a visão de “Pastorear com o Coração e Liderar com Excelência”. Mais precisamente no segundo semestre de 2005 recebi uma surpreendente visita dos meus pastores Messias e Mathias em minha residência. Na oportunidade eles me convidaram a participar da equipe pastoral de nossa igreja. Assim, passamos por todas as exigências da denominação como reciclagem e licenciatura, quando finalmente fomos ordenados em dezembro de 2007.

A vida familiar é sempre uma área frágil na vida dos líderes cristãos. Você foi ordenado juntamente com a esposa. Seria esta uma forma de minimizar o impacto do ministério na família?
Rodolfo
 - A motivação não foi essa. Contudo é evidente que o envolvimento do casal aproxima ainda mais um do outro. Completaremos 20 anos de casados neste ano e o que tem acontecido é um aumento ainda maior de nosso convívio. Percebemos também o envolvimento de nossos filhos no ministério. Eles têm participado ativamente desse momento de nossas vidas e têm vibrado com tudo o que está acontecendo. Espontaneamente, têm manifestado o desejo de também serem profissionais que servirão o Reino de Deus. Entendemos que nosso primeiro ministério é dentro de casa. Se alguém não cuidar bem de sua casa, como poderá cuidar da igreja? Assim pretendemos seguir sempre dando prioridade à família.

Mesmo depois de ordenado você continua com um trabalho secular. Como estabelecer prioridades considerando seu ministério como pastor e seu trabalho como presidente de uma empresa?
Rodolfo
 - Ainda estou em uma grande transição. Além de ocupar a presidência das empresas coligadas ao Consórcio União, estou como presidente nacional da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcio – ABAC que também tem ocupado uma boa parte de minha agenda. Minha intenção é substituir o tempo que dedico à ABAC para a igreja, que acontecerá daqui a um ano. Por enquanto, o esforço tem sido triplicado. Mas a graça de Deus tem sido grande. Em meio a tudo isso, tenho aprendido que o que não pode faltar é o tempo devocional diário. Estabelecer rotinas semanais tem sido muito chave também. Assim consigo repassar todos os assuntos que estou envolvido em uma freqüência constante. É importante reconhecer que só tenho conseguido desenvolver várias atividades porque temos excelentes equipes de trabalho em cada área. Em meio a toda a agenda, é fundamental encontrar um tempo de qualidade para a família e o lazer.

Quais seriam as principais estratégias e atitudes para se conciliar trabalho secular e ministério?
Rodolfo
 - Quando você está em uma atividade, esqueça a outra. Não misture os assuntos. Trate com foco cada um no momento que estiver envolvido. Viva com intensidade aquele assunto. Evite superficialidades, mas também não queira ser mais profundo que o momento exige. Procure balancear a distribuição de tempo. Tenha rotinas semanais bem definidas. Mantenha certo tempo livre na agenda para imprevistos e oportunidades. Sei que atrás de cada frase citada existe muita coisa a se conversar, mas deixo algumas dicas.

Já pensou, ou pensa, em deixar o trabalho secular para dedicar-se integralmente ao ministério?
Rodolfo
 - Não. Entendo que existe o ministério que exige tempo integral que pode conviver com um ministério de tempo parcial. Ambos, porém devem ter um coração integral. Nem todos com tempo integral têm o coração integral. Sei que isso exigirá muito mais disposição e ânimo, pois os conflitos de agenda nunca acabarão. Mas é um resgate de um modelo que pode envolver um número incontável de pessoas. O ministério é de todos. Espero incentivar muitos outros profissionais, empresários e autônomos a dedicarem-se mais ao Reino de Deus. Sobre isso sugiro a leitura do artigo “De onde me virá o sustento.”

Que conselho você gostaria de deixar para aqueles pastores que precisam conciliar ministério com o trabalho secular?
Rodolfo
 - Como pude compartilhar acima, o modelo do duplo ofício foi construído em minha história. Tenho muita paz no coração que esta é a vontade de Deus para minha vida. Cada um deve buscar discernir isso para sua própria vida. Mas em tudo isso, tenha certeza que Aquele que começou a boa obra em sua vida, há de completá-la (Filipenses 1.6).

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