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Liderança Pastoral

O pastor clone


Quando era adolescente, ouvi muitos sermões de um pregador presbiteriano do interior de São Paulo, reitor do Seminário do Sul, em Campinas. Ele costumava afirmar que o brasileiro é um "macaco imitador", que vê, copia e repete. Apesar de ser uma expressão jocosa e bem-humorada, ela guarda em si uma profunda realidade: a nossa tendência a importar sistemas e repetir modelos estrangeiros. Apesar do protestantismo ter sido trazido ao Brasil há mais de um século e meio, produzindo assim uma igreja autóctone forte e pujante, sua liderança ainda continua a reproduzir muito da cultura trazida pelos missionários e valores implantados pelas missões estrangeiras. Da repetição, surge o pastor clone.

Sabemos, contudo, que no Brasil e no resto da América Latina, todos os anos organizam-se dezenas de Consultas e Conferências, a nível regional e nacional, que produzem excelentes palestras e manuais. Centenas de monografias, artigos e livros são escritos por teólogos e outros escritores Latino Americanos que são até mesmo traduzidos para outras línguas. Entretanto, a inclinação para a assimilação das tendências e teorias estrangeiras, aquilo que Orlando Costas chama de "transplantesteológicos"1, ainda é grande. Jardelino, também reconhece com pesar que a nossa visão pastoral ainda está baseada no modelo anglo-saxão do protestantismo de missão: "Acreditamos poder afirmar que a pastoral protestante ainda não saiu da fase missionária, não conseguiu superar a dependência dos modelos da Igreja-Mãe".2

Não faltam aos pastores e líderes das igrejas brasileiras oportunidades para clonagem. Milhares deles importam modelos eclesiásticos das mega-igrejas do hemisfério norte bem como copiam ministérios de sucesso das grandes cidades brasileiras. Apesar de várias tentativas criativas e avanços para superar esta tendência à repetição, muitas igrejas continuam a depender dos modelos importados, diretamente provenientes das culturas de onde se originaram. A facilidade para recorrer aos pastores no exterior era e é ainda demasiada. Um nome estrangeiro, americano ou europeu, no fundo de nossos folders e propagandas, parece que garante um maior número de participantes nas nossas conferências e congressos. Pois afinal, eles têm ou não têm melhor preparo e melhor sermão?

A própria globalização aumentou a possibilidade da cópia dos modelos estrangeiros, especialmente da cultura ocidental americana trazida pela mídia. Ao alcance de um simples telefonema ou link da internet estão centenas de modelos importados que descrevem "como fazer", bem como diversas ferramentas ministeriais, verdadeiros pacotes para reprodução e kits para repetição. Num artigo interessante sobre a relação entre globalização e cristianismo, Ruth Valério descreve como a globalização econômica tem produzido um verdadeiro "Disney McWorld", expressão cunhada da relação social do entretenimento das empresas de Walt Disney com o gerenciamento e marketing da empresa americana de fast-food chamada McDonald, ambas evidentemente influenciadoras na formação da cultura global. Embora nem todas as corporações internacionais sejam americanas, na mente de muitos, globalização é igual a americanização, a criação de uma Disney McMundo. Isso se evidencia claramente quando observamos o quanto as famílias brasileiras, dentro e fora da igreja, copiam as músicas e danças americanas, como grandes fãs de carteirinha assistem aos filmes hollywoodianos, vestem e curtem fashions e estilos importados da América do Norte e crêem que viver e estudar nos Estados Unidos, uma verdadeira "terra prometida" moderna, seria uma das melhores coisas do mundo.

Isto é certamente verdadeiro com referência a Igreja. Como Peter Harris diz: "quando você vai à igreja numa grande cidade, em qualquer parte do mundo, a chance é grande de você estar em Los Angeles, com toda a semelhança cultural existente na teologia ou formas de culto, qualquer que seja a língua falada".3 As ferramentas da Internet capacitaram especialmente os americanos a disseminar mundialmente sua própria literatura e cursos, freqüentemente às custas de negar que seu pessoal desenvolva um material que refleta mais adeqüadamente sua individualidade cultural. O pensamento ocidental americano domina a igreja porque, colocando isso de forma nua e crua, eles têm o dinheiro e recursos para poder fazê-lo.

Como isso tudo afeta o pastor brasileiro? O pastor-clone acaba investindo boa parte de seu tempo na busca de uma receita mágica, ignorando as tradições, a cultura brasileira e a realidade do seu contexto. O missiologista urbano, Ray Bakke, chama isso de mentalidade de franchising do McDonald.4 Na esperança de encontrar uma solução que se encaixe para todos os casos, uma porção única de medicamento, muitos tentam "willowcricar" ou saddlebecar" suas igrejas. Pastores e líderes brasileiros estão inclinados a assumir que os protótipos estrangeiros funcionarão melhor do que os nacionais. Certamente a preocupação com o crescimento tem sido saudável e tem munido a igreja com ferramentas e técnicas que auxiliam a conhecer melhor o mundo secular e o contexto no qual estão inseridas.

A adoção sem adaptação é sempre problemática. Cada igreja tem sua própria impressão digital. A duplicação ou clonagem de um protótipo de ministério de uma comunidade para outra, ou de uma cidade para outra, traz tremendos obstáculos. Muitos dos protótipos bem sucedidos que vem dos Estados Unidos e Europa falharão ao serem adaptados ao contexto sui generis das igrejas brasileiras. Também temos várias culturas dentro do Brasil. O perigo está na tentativa de manufaturar produtos, importar técnicas e clonar os modelos presentes nas igrejas com mais sucesso dos grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outros. Temos várias cidades dentro de nossas cidades. Elas não podem ser uniformizadas e ministérios não devem ser padronizados.

Precisamos antes de tudo buscar a face do Senhor e clamar por um avivamento em nossas igrejas e ministérios que reflita a completa dependência dele para o sucesso e crescimento! A ação do Espírito Santo de Deus é forte demais, imprevisível demais e independente demais para ser clonada. Um bom modelo é importante, mas não determinante. O que determina vitória e realização em nosso ministério será sempre a busca da vontade de Deus, ouvir sua voz e esperar sua clara direção. Assim, saberemos traçar o melhor caminho dentro de nosso contexto específico.

A liderança missional brasileira deve, portanto, ser mais contextual em seus ministérios, adaptando-se a situação concreta em que está inserido o povo brasileiro. Não somente isso, mas também deve ser contextual no sentido de que os recursos, talentos, modelos ministeriais e estórias vividas expressem a autonomia, criatividade e originalidade da igreja brasileira. Assim, é necessário uma melhor reflexão do contexto sócio-cultural brasileiro que reflita na nossa identidade pastoral, estilos ministeriais e práticas missionárias.

Notas:
[1] Orlando Costas, El Protestantismo Em América Latina Hoy, 80.
[2] José Rubens Jardelino, Pastoral: Perspectiva Histórica e desafios atuais, 30.
[3] Ruth Valério, A World Gone Bananas. Globalization and Economics, p. 27.
Connections, The Jornal of the WEA Missions Commissions, June 2003.
[4] Ray Bakke, The Urban Christian, 23.

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