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Liderança Pastoral

A imagem do homem de Deus

No início do século XX o eminente sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) caracterizou o comportamento da sociedade ocidental moderna com o que chamou de "desencantamento do mundo". Segundo esta análise os homens agem motivados pela ação de valores ação de fins. Na primeira o indivíduo orienta sua conduta racional para uma convicção ou valores adotados sem que isso implique, necessariamente, em ganho ou prestígio.

Na segunda o homem passa maior parte do tempo ocupado com atividades, cujos resultados esperados são os que justificam suas ações. Então o importante não são as ações em si, mas os objetivos que se esperam. Chamou de desencantamento do mundo porque a conduta motivada por finalidades acima das ações representa um caminho sem volta, sendo que a crise da sociedade moderna seria o resultado da renúncia da ação de valores.

Diante do exposto elabora-se o problema: Sendo esta uma análise sociológica e sendo os agrupamentos cristãos alvos de estudo da ciência social, pode-se perceber a ação de finalidade pressionando a ação de valores a ponto de hoje se visualizar sua maior crise? A começar pelo ministério pastoral nota-se o perigo iminente porque está cercado de uma sociedade cada vez mais secular (de século). No senso comum observa-se as pessoas mais simples renunciarem uma determinada causa humanitária; ainda que nobre, porque não envolve valor financeiro.

Infelizmente a análise teórica do sociólogo alemão parece atingir proporções imensas em nosso país. Já se vê com naturalidade igrejas e pastores almejando os resultados antes das ações. Criou-se o drástico problema da vulgarização das ações pressionadas pelos interesses. Obviamente, se fossem sempre as ações de valores que movessem líderes e cristãos, os interesses sempre seriam espirituais, piedosos e nobres. Por que não se vê mais homens como Lutero, Calvino, Samuel Rutherford, Martin Luther King, Abraham Kuyper, Francis Schaeffer, Simonton, José Manoel da Conceição (para citar alguns)? Sem dúvida, as respostas podem ser variadas.

A sociologia descarta aquele tipo de dominação carismática presente em grandes líderes dos séculos XVI até meados do século XX como transformadores da sociedade moderna e aposta em três fatores atuais que contribuem para a mudança social. Eles são: Descoberta, a Revolução Industrial, por exemplo; invenção: a divisão dos três poderes no Estado Moderno em Montesquieu, por exemplo; e a difusão: a Internet, por exemplo. Mas será preciso reconhecer que esses grandes líderes mencionados foram motivados por valores.

Suas convicções tinham base em princípios e, como era de se esperar, suas ações eram valorativas de causa. Afetos, objetivos e comportamento social visavam só a glória de Deus que, por sua vez, justificavam suas ações de forma plausível. Grande parte da crise no evangelicalismo brasileiro se explica pelos interesses de poder (político), status (financeiro) e marketing (concorrência).

O poder - com pólos densamente políticos, o status - com interesses exclusivamente materiais e o marketing - que tem se tornado a arte do "empurrômetro" do produto religioso fazendo o sagrado ter sentido pejorativo; representam as crias caçula da ação que visa interesses.

Os efeitos sobre ministérios voltados para a reflexão e pregação expositiva, por exemplo, tem sido catastróficos. A identificação com os ideais (geralmente teológicos) adotados por determinado grupo cristão costuma ter a profundidade da casca de um ovo. No mundo das ações de finalidade, quando se adere a um certo grupo, não se faz por motivação de valores, mas de interesses. Então a circulação livre de crentes pelos vários grupos evangélicos chegou no auge em nossos dias.

A equação é lastimavelmente simples: "Adiro a este grupo, mas o que ele  tem para me oferecer? Ou ainda: "O que vou ganhar com isso?"

Percebe-se ínfimo conhecimento dos postulados teológicos do grupo ao qual se adere porque não há preocupação com a "cor da bandeira", mas com o apadrinhar das necessidades. É neste rumo que redutos comunitários que exploram a "prosperidade já", "saúde física já" e "cura terapêutica já" representam um nicho promissor numa sociedade cansada e superficial.

Após estas constatações, nota-se que comportamentos generalizados com base na ética situacionista pressionam os ministérios pastorais. Não são poucos ministros que sucumbiram à regra (porque deixou de ser exceção, posto que generalizada), escondendo-se atrás da preservação da imagem.

Já que possuem uma imagem pastoral que precisa de manutenção, faz-se qualquer coisa para manter seu brilho. Há erro nisso? Não se vê erro em manter o brilho da imagem porque é a Palavra que nos recomenda. Mas a dura constatação é a de que não é a Palavra que tem norteado a imagem pastoral, mas os grupos de consumidores, embora toda generalização seja perigosa.

Ora, se ficou provado que de forma geral, o homem moderno valoriza o fim da ação, e não a ação propriamente, caindo no pragmatismo dos fins (efeitos esperados) que justificam as ações; é certo que muitos ministérios tem baixado ao nível do mero interesse e, se fazer a vontade dos consumidores significa atingir o interesse, então isso será chamado de preservação da imagem. A ótica da preservação ministerial não vem de Deus, mas dos indivíduos.

Conclui-se lançando um pensamento dialético. As regras para a contratação de obreiros no Brasil hoje têm sido pelos seus valores teológicos penosamente apreendidos e defendidos? Têm sido pela sua dominação carismática? Pela preservação e identificação da imagem biblicamente esperada do servo fiel? Pelo nome (status) adquirido, ou pela humildade e piedade cristã manifestada.

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