Artigos

Compartilhe

Administração Geral

Desafios de toda organização


Grandes e conhecidas organizações como Panam, Enron, Worldcom e Arthur Andersen foram definitivamente riscadas do mapa corporativo. Saíram do mapa porque, por alguma razão, tomaram decisões erradas. Apesar de serem organizações muito famosas, vivenciaram grandes escândalos mundiais, especialmente relacionados a fraudes financeiras. O que aconteceu nessas organizações que as teria tirado do mercado e levado à falência? Vamos tentar responder isso através dessa reflexão a respeito dos três grandes desafios que toda a organização enfrenta.

O primeiro desafio: Sobreviver

Emprestamos a figura do espermatozóide na intenção de sobreviver, de atingir e de fecundar o óvulo – uma briga onde muitos começam mas somente um vai ser vitorioso.

Um pioneiro que começa um negócio inevitavelmente enfrenta uma luta intensa pela sobrevivência. É como um desbravador, um conquistador, um bandeirante tendo que entrar em território desconhecido e selvagem que deve ser desbravado. Neste ambiente ele deve fincar sua bandeira, enfrentar as lutas e os animais para sobreviver e conquistar o seu território.

O primeiro desafio de qualquer organização na fase de sobreviver é empreender. A figura do empreendedor é a parte mais forte nessa fase. Ele tem que dormir e acordar com o negócio, sonhar, estar o tempo todo envolvido com ele. É uma fase de grandes riscos, de grandes dificuldades, que poucos conseguem atravessar. Há estatísticas que mostram que muito poucos conseguem passar essa fase, exatamente como a figura do espermatozóide.

Não existe empreendedorismo sem que o mercado seja atingido. Há conceitos variados sobre empreendedorismo, mas um conceito simples e objetivo é aquele que define empreender como ter um serviço, um produto ou um negócio e atingir o mercado ou o público-alvo.

Conta-se nesse assunto uma história de um grande inventor que criou uma engenhoca no início do século passado, ao redor de 1900. Ele era uma pessoa brilhante, muito diferenciada em sua época e inventou um equipamento que era uma grande e tremenda revolução para os mercados. Porém, ao apresentar esse equipamento, muitos não conseguiam acreditar nele, e acabavam por não comprar o produto. Ele fez de tudo, desde financiar o equipamento a perder de vista até prometer que, se a pessoa comprasse o equipamento e este não fosse bom, ele compraria de volta – isso há mais de 100 anos...

Ele colocou todas as suas economias ali e, infelizmente, não conseguiu sobreviver e acabou falindo. Não agüentou psicologicamente a falência e suicidou-se. Logo após sua morte, apareceu um cliente que ficou sabendo do equipamento e pagou por ele o preço que havia sido pedido. O cliente era a Marinha Inglesa e o nome desse inventor, Rudolf Diesel - inventor do motor a diesel. A Marinha Inglesa já tinha a tecnologia do submarino, mas não tinha uma solução para o motor, que até então era a vapor.

Imagine um motor de submarino a vapor! Você demorava de três a quatro horas para fechar e mergulhar para não deixar pista, porque aquilo estava ali escondido, debaixo da água... Pagaram o preço que foi pedido e a partir desse primeiro caso, desse primeiro cliente, é que realmente aquele invento, aquela engenhoca, transformou-se num produto e atingiu o mercado. Empreendedorismo.

Infelizmente essa é uma história em que o empreendedor não conseguiu ver o impacto que sua invenção teve. Hoje, na Europa, a cada quatro carros, 2,6 aproximadamente são a diesel e fica difícil imaginar tratores e inúmeros outros equipamentos sem motor a diesel.

Esse é um exemplo muito simples que demonstra quão difícil e quão desafiadora é essa fase para uma organização. Mas, uma vez vencido esse desafio, vem o segundo desafio, que não acontece após o primeiro, e sim se acumula com ele.

Segundo desafio: Crescer

Toda organização que sobrevive, além de se manter sobrevivendo, tem que crescer. Podemos também emprestar uma figura da biologia. O sentido de crescimento na biologia não é o mesmo da aritmética, onde se cresce numericamente. O crescimento é também da musculatura, das emoções, dos pensamentos e das competências, que devem ser ampliadas cada vez mais.

Nesse momento, tomamos a figura de um adolescente absolutamente resoluto em crescer, tornar-se adulto, ser aceito pela sociedade, enfrentar seu mundo com garra e determinação, inclinar-se aos sonhos e planos de seu futuro. É o caminho natural.

Para as organizações, não existe crescimento sem tecnologia, sem revisão de processos, sem melhores técnicas e pessoas capacitadas em suas funções. Não há como crescer desordenadamente. Enquanto no primeiro desafio tem-se a impressão que o empreendedor é meio bagunçado e que as coisas vão sendo meio atropeladas, nesse segundo momento não existe crescimento sem a devida infra-estrutura. Daí o maior alvo ser justamente a criação de uma base para o crescimento. Entramos na ação chave: a gestão. Talvez dela venha a própria expressão “organização”. Pressupõe gestão de pessoas, gestão de marketing, de comunicação, gestão de finanças, gestão de processos, de operações, entre outras.

Uma organização, por exemplo, que não cresce através de uma gestão juridicamente correta, pode ser absorvida pelo próprio cliente, saqueada pelos próprios colaboradores nas facilidades da legislação trabalhista ou ainda tragada pela complexidade tributária. E quanto a área financeira, que é uma das principais? Sem uma boa gestão financeira, não se faz fluxo de caixa, não se planeja as entradas e as saídas da organização, enfim, tomam-se decisões muitas vezes somente no afã do empreendedorismo, sem considerar que aquele crescimento desordenado faz com que a própria estrutura se quebre. As finanças em uma organização são como o sangue para o organismo: tem que fluir continuamente em todas as partes do corpo humano.

Nesse ponto, muitos empreendedores não conseguem enxergar que a organização enfrenta novos desafios que não podem ser vencidos com a estrutura original. O que antes se controlava somente com os próprios olhos não é mais possível frente a uma expansão territorial. Antes se tinha pleno conhecimento da operação, agora surgem novas tecnologias e ameaças que incitam um corpo de colaboradores com melhor capacitação. Antes a economia nacional era fechada oferecendo poucas alternativas de concorrência mas hoje oferece um leque de novos produtos e serviços a custos realmente ameaçadores.

O crescimento torna-se necessário para enfrentamento desses novos desafios. Criação de massa crítica, atração de inteligência, motivação dos envolvidos. Várias razões para crescer. Crescer ou morrer. Mas não se iluda, pois uma organização pode ir a falência ou porque cresce muito rapidamente, ou porque não cresce. O crescimento é necessário para qualquer organização.

Lembrando que aqui estamos emprestando uma figura da biologia, uma organização pode ser muito saudável e viver por muitos e muitos anos sendo numericamente pequena, mas crescendo em excelência, com pessoas que realmente sabem o que fazem, utilizando-se de tecnologia e processos atualizados.

Terceiro desafio: Perpetuar-se

Perpetuar-se significa transmitir a outras gerações o seu gene. Por isso podemos aqui emprestar a figurade um código genético, sendo transmitido de uma geração para outra. Isso é provocado tanto no processo de sucessão de uma organização, como num processo natural de crescimento em que você tem uma expansão e a necessidade de transmissão para as pontas daquilo que se pensa, daquilo que se valoriza na sua origem. Se você não tem vitória na sua capacidade de transmitir o crescimento às pontas, a identidade da própria organização vai morrer na fase anterior. Ela vai crescer e vai morrer.

Essa fase tem como ação chave a governança, que se apresenta como a melhor prática para solução dos conflitos entre as várias partes que compõem uma organização. A governança corporativa é uma expressão que também tem sido muito usada para tentar resumir as melhores práticas de se governar uma organização. Muito mais do que se gerenciar uma organização, a governança trata de administrar os conflitos existentes entre os proprietários e os executivos, entre os clientes e o governo, entre todas as partes que se relacionam no contexto daquela organização.

Esse é um desafio em que pouquíssimas organizações conseguem chegar, porque, infelizmente, essas três áreas que estamos falando – sobrevivência, crescimento e perpetuação – têm igualmente como que um mecanismo de filtro que vai selecionando e depurando as organizações.

São poucas as organizações mundiais que passam de cinqüenta anos, quiçá de cem anos. Se formos pensar em duzentos anos então ficamos com um extrato ínfimo já que alcançar esta idade implica não somente em grande dificuldade como também em muitos desafios. Por isso, a introdução desse tema de governança.

Na fase de perpetuação o seu maior alvo é aumentar o seu valor. A organização tem que ter valor perante os vários públicos com que se relaciona. Ela tem que ter um valor perante a comunidade onde está inserida, sendo respeitada por esses interlocutores. Ela tem que agregar grande valor àqueles que nela trabalham e a toda cadeia que está envolvida em seu processo para poder sempre atrair pessoas, capital, recursos e interesse para assim o seu negócio se perpetuar.

Concluindo, ao discernir esses três desafios perenes que toda a organização enfrenta de sobrevivência, crescimento e perpetuação, tem-se a chance de enfrentá-los cada qual em seu tempo e ênfase, com os ferramentais da moderna administração, trabalhando-se sempre para a continuidade do cumprimento da missão que cada organização tem como razão de sua existência.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com.

Leia Também: 
A Igreja como organismo e organização
Executar o planejado. Eis o desafio
Entendendo a cultura organizacional