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Administração Geral

O governo da Igreja no Novo Testamento


Jesus vem com um coração puro, com o gene da origem da criação intacto na direção de comandar e governar sobre a Terra. Ao contrário do primeiro Adão, segue integralmente toda a vontade do Pai Celestial. Não questiona, obedece. Faz questão de deixar claro que todo o poder que tem vem de Deus. Exerce poder a serviço, e não exige serviço para si por conta do poder que tem. É um paradigma do coração não corrompido pelo pecado. É oficiosamente aclamado Rei, ovacionado e desejado na posição de poder. É carismático, exerce autoridade, cura pessoas, alimenta famintos, traz libertação aos endemoninhados, fala a língua que o povo entende, ensina e, acima de tudo, traz esperança a um povo que vive sob domínio dos romanos.

Ao ser esperado como Rei, Jesus depara-se com as expectativas erradas de seus seguidores. A começar pelo episódio de Tiago e João pretendendo assentar-se à direita e à esquerda de Jesus quando estivesse em sua glória (Mc 10.37). Eles e todo o povo esperavam o libertador político. Mas aqui Jesus tem a oportunidade de esclarecer que, na perspectiva do coração corrompido, os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas na perspectiva do coração não corrompido, quem quiser tornar-se grande, será esse o que serve e quem quiser ser o primeiro deve ser servo de todos. Ele mesmo declara que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Ë um paradigma muito diferente de tudo o que existe ao redor. É a visão do Rei em sua missão. “Jesus substitui o desejo de dominação pela idéia de uma responsabilidade de serviço fraterno.”

Neste ambiente é quando Jesus faz o lançamento da pedra fundamental da Igreja. Na conhecida conversa com Pedro (Mt 16.18), Jesus lança os fundamentos do movimento que ele chama de Igreja. Diferentemente do que muitos querem assegurar que reside sobre Pedro tal chamamento, a compreensão bíblica esclarece que ele foi somente um dos construtores deste sagrado edifício, conforme nos assegura Paulo que a Igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus como pedra angular (Ef 2.20). Aqui se tem o indicativo de uma liderança investida na função, com poder distribuído, com pessoas comprometidas com o serviço, a exemplo de quem a constituiu.

Logo após a morte de Jesus, os apóstolos têm uma primeira função de substituir aquele dos doze que havia caído. Escolhem por um método que todos confiam o nome de Matias. O processo não acontece a portas fechadas, mas na presença da chamada Igreja, incluindo as mulheres excluídas da sociedade. Liderança completa, corações cheios de dúvidas e expectativas, grupo coeso e unido. Ambiente favorável para a vinda do Espírito Santo. Agora sim, cheios da presença do Consolador, capacitados com seus dons, a Igreja segue rumo ao cumprimento de sua missão.

Passam-se os primeiros lances da Igreja, as primeiras pregações, curas, coletas, confrontos (Sinédrio), juízos (Ananias e Safira), perseguições e muitas orações. Mas a Igreja é formada por pessoas em transformação. Corações em transformação exigem muito mais de seus líderes. Era um daqueles dias de grande agitação no meio da Igreja que crescia. Muitas curas e milagres eram seguidos por generosas doações, transformando tudo em comum aos pés dos Apóstolos. Embora aqueles recursos não fossem o objetivo da Igreja que nascia e se multiplicava, eram conseqüências da intensidade da presença do Espírito Santo, da comunhão dos santos e do amor que comandava os corações. O fato é que tais recursos permitiam um amplo atendimento aos necessitados.

Mas, naquele dia em especial, as divergências apareceram nas reclamações dos judeus de fala grega porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento em favor dos judeus de fala hebraica. Problemas à vista: o sistema de distribuição de alimentos não estava atendendo a todos, instalando um sentimento de injustiça, intensificando os conflitos. Por conta disso, houve a convocação de uma grande Assembléia entre todos os discípulos, coordenada pelos Doze Apóstolos, quando, enfim, chegaram à brilhante conclusão que precisavam transferir a gestão financeira a sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Ao delegarem essa tarefa, focariam seus esforços à oração e ministério. Que humildade exigiu esse reconhecimento de investirem outros para a função de gestão!

Esses gestores não eram meros gestores como tenderíamos a ver com olhos mais limitados a conceitos de administração mal compreendidos. Estamos falando aqui de uma estirpe de gestores gerados pelo Espírito de Deus, cheios da graça e do poder de Deus, capacitados à realização de grandes maravilhas e sinais entre o povo. Estirpe semelhante a José, Daniel e tantos outros ungidos para governar as finanças e recursos do Reino de Deus. Pessoas levantadas em uma vida de santidade, cuja sabedoria com que falavam não podiam ser resistidos. Pessoas comprometidas com Jesus, seu Reino e seus valores.

Acertaram os Apóstolos. Acertaram os Gestores. Mudança no governo para atingirem a missão.

Os Apóstolos por reconhecerem que não tinham dons para tratar dos assuntos, por compreenderem que sua missão poderia ser sacrificada, por discernirem que seu foco estava ligado ao pastoreamento das ovelhas, ao ensino da Palavra e às orações, por saberem escolher pessoas qualificadas e com o coração à nova função que se criava, tudo na direção do Espírito Santo.

Os gestores por promoverem uma justa distribuição dos recursos que lhes eram confiados, por exercerem sua função de mordomia com eficácia e amor, por fazerem tudo com muita fé, sendo instrumentos de Deus para a operação de maravilhas, por desempenharem seu papel com primazia e cumprirem sua missão, tudo na direção do Espírito de Deus.

Encabeçando a lista dos sete gestores, encontramos o nome de Estevão. Acusado à custa de testemunhas subornadas, foi intensamente ousado e cheio de sabedoria em seu discurso que o levaria à morte. Seus assassinos agrediram pela ignorância e pela manifestação de um coração mal e cheio de pecado. Não podiam negar seu dom de zerar a fome, promover bem estar, trazer paz e distribuir o que havia sido multiplicado.

Assim o governo na Igreja do Novo Testamento é exercido por pessoas que dão suas vidas até a morte para promoverem a semente do Evangelho, a transformação dos corações, o bem estar de dentro pra fora. A força a partir da liderança é tão forte, o comprometimento é tão evidente, a mensagem vivida é tão verdadeira, que a perseguição traz efeito contrário ao que pretendiam seus feitores: a Igreja cresce ao invés de se inibir.

Passados os primeiros anos, temos principalmente nas epístolas do apóstolo Paulo, a ênfase na formação dos líderes de líderes. Sua preocupação é sempre voltada ao cerne do evangelho, ao calor do primeiro amor, aos aspectos práticos do recrutamento, seleção, desenvolvimento, direcionamento dos pastores, presbíteros e diáconos que exercem seu ofício.

Sem maiores preocupações institucionais com os cargos envolvidos, Paulo preocupa-se com a essência no desempenho das responsabilidades. Suas instruções são práticas e variadas. Deixa vasto material que alimentará os muitos anos que se seguirão na história do governo da Igreja.

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