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Administração Geral

O governo com ênfase na organização


A primeira Lei de Isaac Newton ao observar o comportamento de corpos em movimento diz que "todo corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por forças impressas a ele." Este princípio da física conhecido por inércia pode ajudar na melhor compreensão do que acontece no processo de institucionalização natural da Igreja.

A definição espiritualizada da Igreja, evitando-se expressões que caíssem na menção ou associação com qualquer forma de “Instituição Sacra”, logo mostrou-se insuficiente para a prática necessária do cuidado do rebanho. O movimento inicial dos “sem governo” caminhara para uma direção cuja inércia levaria ao caos. Princípios seguidos pelos Quacres e os Darbistas pela rejeição de todo o tipo de governo na Igreja logo gerou opositores. Para a direção aparente de um “sem-governo”, a resposta foi a construção de novos formatos de governo. No primeiro instante estruturas e instituições reformadas.

A inércia deste movimento, entretanto, caminha na mesma direção da situação que se encontrava a Instituição Romana quando da Reforma. Como que afirmar que toda a Estrutura Protestante tende a ser equivalente à Romana, bastando somente acrescentar o tempo de dois mil anos. Isso é o efeito inércia, desde que nenhuma outra força reformante intervenha.

Desde seus primórdios a Igreja tem estatutos legais, regras de funcionamento interno, códigos que norteiam os relacionamentos sociais, formas e formatos que trazem segurança aos que dela participam. Na melhor leitura néo-testamentário, “ordem” não contrapõe o “Espírito”, antes, estas expressões se complementam. A Igreja sempre foi ameaçada por falsos profetas que tentavam subjugá-la. Surgem então três elementos institucionais para dar mais segurança nestas situações críticas: o cânon da Bíblia, as regras de fé (Concílios, Credos etc.) e a hierarquia dos seus oficiais. Essa criação de elementos que se tornam objetivos, institucionais, expressão visível para ordem e decência, fazem sentido, mas não asseguram, per si, a manutenção da natureza espiritual, como organismo.

Sob o ponto de vista de governo propriamente dito, existem três principais formas na Igreja1 : o primeiro é o episcopal (ou monárquico), onde se dá grande ênfase à constituição de uma ordem superior de clérigos (bispos) que são os guardiões da tradição e os árbitros últimos da autoridade na vida da Igreja; o segundo tipo é o representativo (presbiteriano), onde representantes leigos e ministeriais são escolhidos pelo povo e investidos de autoridade para agir em seu nome; a terceira forma mais usual é a congregacional (democrático) que só reconhece uma ordem de clérigos, mas não “delega” para agir em nome do povo, uma vez que o próprio povo realiza a ação das decisões (assembléias).

É certo que a Igreja enquanto organização é estática, cheia de padrões, técnica, que traz ordem a si mesma. A adesão à autoridade formal e à tradição (inicialmente dos Apóstolos) torna-se natural. Ao lado do elemento fé, nasce a doutrina, ao lado da comunhão, a instituição dos sacramentos, ao lado do serviço, os cargos e funções. A Igreja para se preservar “Igreja” apresenta estes três elementos: doutrina, sacramentos e funções. “O poder do evangelho está no vinho, não nos odres, mas ao reconhecer o papel dos odres, começamos a vislumbrar as possibilidades de uma Igreja saudável.”2

Aqui se entende a forma da Igreja. É aqui que a Igreja estabelece prioridades, estipula alvos, cria planos e desenvolve atividades pelas quais “vive no mundo, por causa do mundo, mas diferentemente do mundo”3.  Afinal, o entendimento correto da natureza missionária da Igreja não gera automaticamente a ação adequada. Isso só pode ser feito com uma administração (ou governo) intencional e ponderada. “É na administração (governo) que as congregações missionárias recebem forma concreta, prática e exeqüível.  É na administração que a perspectiva que vê a Igreja “de cima” une-se à que vê a Igreja “de baixo”. Na administração o organismo funde-se à instituição.”4

Entretanto, os que governam e deixam-se ser governados ao extremo da visão estrita da Igreja como organização tendem a ter cinco características controversas, segundo Schwarz5 : objetivismo, heteronomia, formalismo, racionalismo e magia.

São objetivistas a partir do profundo desejo humano por segurança, buscando o máximo de garantias em elementos externos e concretos. Correm o risco de colocar as instituições no lugar de Cristo, pois se a aceitação das declarações doutrinárias, a adesão a um código moral ou a sujeição à autoridade eclesiástica são suficientes, qual a necessidade de um relacionamento pessoal com Cristo? Ao enfatizar os preceitos legais adotam a heteronomia (“sujeição a uma lei exterior ou à vontade de outrem; ausência de autonomia”6 ) como estilo de vida. Ao substituir a vida espontânea por uma multidão de rituais, incorporam o formalismo como maneira única de se expressar a fé. Ao rejeitarem todas as formas de “experiência” subjetiva religiosa, tornam-se racionalistas radicais. Por último, acreditam que a simples realização dos sacramentos (ou outro elemento institucional) garante automaticamente sua eficácia devido às qualidades intrínsecas, como uma magia.

O Governo no extremo da Igreja como organização manifesta-se como tradicionalismo extremo, clericalismo expresso e/ou dogmatismo rígido. Pensam assim: recite uma fórmula mágica (como servo de Deus devidamente ordenado), e o Espírito Santo descerá sobre você; utilize certa estratégia de crescimento e a Igreja expandirá; siga este ritual de oração e as coisas acontecerão. O governo torna-se inflexível, buscando sua perpetuação, afinal, aqueles que lá estão são únicos. A organização é identificada como o próprio organismo. Não percebem a realidade invisível além do que está no campo visível e concreto.

Aqueles que governam no equívoco institucionalista devem arrepender-se de sua prepotência e engano e submeter-se à verdade que  “a Igreja como instituição ou organização (mater fidelium) é um meio para um fim, e este se acha na Igreja como organismo, a comunidade dos crentes (coetus fidelium)”.7

Notas:
1FERREIRA, Júlio Andrade. Antologia Teológica, p.  516, 557.
2SNYDER, Howard A. e RUNYON, Daniel. Decoding the Church, p. 61.
3ENGEN, Charles van. Povo Missionário, povo de Deus, p. 173.
4ENGEN, Charles van. Povo Missionário, povo de Deus, p. 238.
5SCHWARZ, Christian A.. Mudança de Paradigma na Igreja, p. 33-38.
6Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.
7BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática, p. 521

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