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Administração Geral

Resultados de um bom governo na Igreja


O dom de governo na Igreja é estabelecido e funciona de forma mais visível na jurisdição da Igreja-organização. Como já comentado anteriormente, a finalidade primeira, prioritária e única da Igreja-organização é promover e estimular a essência da Igreja-organismo. Jesus aplicou de maneira direta e inteligente durante seu sermão da montanha a afirmativa “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.20). Nem todo o fruto que parece bom reflete um bom governo, mas todo bom governo deve dar bons frutos.

Em última instância, a Igreja busca atingir o coração das pessoas, levando-as ao conhecimento de sua realidade de perdição, de sua natureza pecaminosa e da salvação em Jesus, no convencimento do Espírito Santo, ajudando-as a tornarem-se discípulas do Mestre. A caminhada de crescimento espiritual, feita em um ambiente de comunhão e fé, consolo e conforto nos momentos de lutas e revezes, permite o crescimento individual, familiar e comunitário. Em síntese, haverá promoção da paz, da alegria e da justiça, que são marcas do Reino de Deus. A conseqüência natural seria a evidente melhora na qualidade de vida, no prazer e na esperança do viver. A melhora na qualidade de alguns é fator para atração de outros. O testemunho faz parte naturalmente do contexto dos “alcançados”, visto que a graça que receberam de Deus não é limitada e exclusivista, mas grandiosa o suficiente para mais e mais pessoas. Após a experimentação dos efeitos do poder libertador do evangelho na própria vida, a alegria se completa em facilitar a chegada de outros indivíduos. O ciclo torna-se, então, virtuoso e multiplicador. Isso é o que o governo da Igreja-organização deveria promover.

Desde o Credo de Nicéia (325 A.D.) a Igreja tem sido definida como tendo quatro principais marcas: una, santa, católica e apostólica. A Igreja-organização Católica Apostólica Romana afirmava ser a expressão institucional dessas marcas. Os reformadores combateram a afirmativa introduzindo o conceito de Igreja invisível que seria a expressão dessas verdades. De fato, quando se olha para a Igreja-organização (qualquer que seja, não só a Romana) deve-se concordar com os reformadores que ela não expressa totalmente estas marcas. “É santa, mas pecadora; una, mas dividida; universal, mas individual; apostólica, mas impregnada das estruturas de pensamento de sua época”1. Diante deste dilema, o governo da Igreja-organização deve promover a Igreja-organismo, discernindo as quatro palavras de Nicéia “não como adjetivos, mas como advérbios que designam a ação missionária da essência da vida da Igreja no mundo”2.

Nesta proposta, a Igreja una de Jesus Cristo seria vista como uma força unificadora, ocupando-se de reunir, convidar e incorporar; a Igreja santa de Jesus Cristo seria vista como uma força santificadora, vivendo de modo que as pessoas possam ser perdoadas e curadas e a presença do Deus santo possa ser desfrutada; a Igreja católica de Jesus Cristo seria vista como uma força reconciliadora; construindo pontes de comunhão com Deus e com o próximo em um contexto de humanidade dilacerada e alienada; a Igreja apostólica de Jesus Cristo seria vista como uma força proclamadora, disponibilizando a verdade através do exemplo prático de uma comunidade de discípulos que se conhecem, amam e servem uns aos outros porque conhecem, amam e servem o seu Mestre.

Além das marcas de Nicéia, os reformadores identificaram que Cristo instituiu na Igreja três canais objetivos aos quais Ele se prende normalmente para a comunicação da Sua graça, denominando-os de “meios da graça”, quais sejam: a palavra, os sacramentos do batismo e santa ceia. A Igreja é o órgão designado para a distribuição das bênçãos da graça divina, mas destaca-se que, “em si mesmos, eles são completamente ineficientes e só produzem resultados espirituais positivos mediante a eficaz operação do Espírito Santo”3.  Neste ponto, “Lutero e Calvino concordaram sobre a questão do que consistia uma verdadeira Igreja”4.  Basta observar a declaração de fé luterana, chamada de Confissão de Ausburgo (1530), em seu artigo 7, definia Igreja como a “congregação de santos na qual o evangelho é ensinado corretamente e os sacramentos também são ministrados corretamente”; por sua vez João Calvino afirmou: “Onde quer que ouçamos a Palavra de Deus puramente pregada e ouvida, e os sacramentos ministrados conforme instituídos por Cristo, ali , e não se deve duvidar, existe uma Igreja de Deus.” A Igreja-organização deve promover, em ambiente de fé e comunhão, a administração desses meios da graça.

Não há unanimidade entre os teólogos protestantes quanto à restrição de somente três elementos constituírem os “meios da graça”. Independentemente dessa discussão, é fato também que a Igreja-organização tem outros resultados a promover, quais sejam: “aplicação correta da disciplina eclesiástica, adoração genuína, oração eficaz, testemunho eficaz, comunhão eficaz, governo eclesiástico baseado em princípios bíblicos, os cuidado dos dízimos e ofertas, o estímulo ao exercício dos dons e ministérios distribuídos pelo Espírito ao povo de Deus”5.

Existem várias tentativas de se sintetizar as marcas que indicam quão saudável uma Igreja-organização está. No trabalho proposto por Schwarz6 , uma Igreja com qualidade deve apresentar oito marcas principais: liderança capacitadora, ministérios orientados pelos dons, espiritualidade contagiante, estruturas funcionais, culto inspirador, grupos familiares, evangelização orientada para as necessidades e relacionamentos marcados pelo amor fraternal. Através de estudos científicos é possível apontar com certa precisão a qualidade percebida em cada uma dessas marcas. Eis o desafio ao governo de uma Igreja-organização.

Assim, o governo da Igreja, em pleno desempenho de seu dom, deve ter como resultado alvo: promover as marcas do Reino de Deus (paz, alegria e justiça), ter como alvo as marcas de Nicéia na perspectiva adverbial (una, santa, católica, apostólica); administrar os “meios da graça” (palavra, batismo, ceia); estimular a realização de várias tarefas e funções (disciplina eclesiástica, adoração, oração, testemunho, comunhão, finanças, dons e ministérios do povo de Deus); observando-se em oito principais ângulos (liderança, ministérios, espiritualidade, estruturas, cultos, grupos, evangelização e relacionamentos). 

Notas:
ENGEN, Charles van. Povo Missionário, povo de Deus, p. 75.
ENGEN, Charles van. Povo Missionário, povo de Deus,  p. 85.
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática, p. 557.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p. 724
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p.734, 802.
SCHWARZ, Christian A. O desenvolvimento Natural da Igreja.

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