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Administração Geral

Gestão em tempos de prosperidade e ganância


Temos vivido tempos de grande prosperidade financeira em muitos ministérios e igrejas evangélicas. Não estou julgando o valor, se agradam ou não ao coração de Deus. Refiro-me ao aspecto material, financeiro. Muito dinheiro está em circulação nas mãos de pessoas em organizações cristãs. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Análise, igrejas arrecadam mais de R$ 1,7 bilhões por mês no Brasil. É muito dinheiro!

O que sabemos pela Bíblia e pela leitura da história da humanidade é que, por causa do pecado, as pessoas perderam as boas referências para uma gestão equilibrada, justa e honesta, deixando de lado a ética e fazendo tudo para perpetuarem-se no poder e na posição de ganhos, custe o que custar.

Jesus veio ao mundo para renovar nossas referências de governo e domínio. Ele trouxe de volta o poder concedido ao homem que outrora fora roubado por Satanás. 

Ele veio para ser a referência. Sem Ele, portanto, nos tornamos corruptos. Seremos como políticos que transformam suas ideologias em demagogia. Na prática, líderes e pastores que nascem com o desejo de servir, mas acabam por querer ser servidos.

A Bíblia é muito clara ao nos alertar em 2 Coríntios 6:3: “Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado”.

Também nos respalda para este tipo de ação em Filipenses 1:10: “Para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo”.

Nada mais justo, previdente e responsável, então, do que nos cercarmos de mecanismos que possam garantir transparência e controle dos atos das pessoas que estão na liderança – seja em qualquer tipo de ministério. A esse conjunto de medidas preventivas podemos dar o nome de boas práticas de governança, ou melhores estratégias de gestão corporativa. Com elas, podemos garantir um governo eficaz e vitorioso, em todos os sentidos. Com elas, asseguramos um saudável posicionamento que toda a organização deve ter diante de tantos desafios e tentações que aparecem na caminhada.

Cinco práticas que não podem faltar em sua gestão:

1. Transparência - Você já deve ter ouvido alguém falar que na vida pública “ser transparente demais inviabiliza o governo”. Mas esse é um mito que faz referência a uma humanidade decaída e pecaminosa. Na realidade, em algum nível de seu governo, seja ele em qualquer esfera, alguém precisa saber de tudo. Se você é um líder coerente, é também transparente.

A transparência deve estar presente na vida pessoal, nos relacionamentos, na vida financeira e, é claro, na vida ministerial. Nesta última, ser um líder transparente é satisfazer às diferentes necessidades de informação dos diversos públicos com quem a igreja se relaciona, dentro de sua denominação, entre os diversos líderes internos, seus participantes e na comunidade onde está inserida. Um pastor transparente tem apoio espiritual através da oração, desperta a confiança daqueles que estão à sua volta e mostra sua dependência do Espírito Santo.

2. Equidade - É o tratamento justo e equânime entre os líderes e os diversos níveis de estrutura de governo. Na verdade, a equidade está entre as práticas de boa governança que mais pode estimular o bom funcionamento do trabalho. Isto porque através dela é possível despertar nas pessoas o sentimento que todos, independente da função que desempenham, têm a mesma importância para o resultado final da missão.

Entre os problemas para colocar a equidade em prática – inclusive na igreja – estão nossas preferências pessoais e o nível de afetividade com determinadas pessoas ou até mesmo áreas de atuação. Mas nos voltando para a Palavra de Deus, vemos que, para o Senhor, a equidade é um assunto muito sério. Em dois exemplos do livro de Tiago é possível notar que Ele não tolera tratamentos diferenciados: “Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas”. (Tiago 2:1) ”Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redargüidos pela lei como transgressores”. (Tiago 2:9)

Sendo assim, vale guardar – e praticar – o real significado de ser um líder equânime e imparcial, que em síntese, é lidar com o contraste de ter que ser firme mesmo com aqueles com quem temos grande afetividade e flexível mesmo com aqueles que não nos agradam tanto assim.

3. Prestação de contas - No capítulo 16 do evangelho de Lucas, Jesus conta mais uma parábola para despertar seus ouvintes quanto à necessidade da prestação de contas. O texto começa falando de um rico senhor que chamou o seu mordomo – uma analogia direta a quem exerce ministério na Obra de Deus – para que este lhe prestasse contas. E já no versículo 2, ele o indaga: “E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo”.

Para o rico senhor, a prestação de contas era um pré-requisito, uma prática que deveria ser natural e contínua. Caso contrário, desabilitaria o mordomo a continuar no cargo.

Na prática, a prestação de contas serve para conferir se os mordomos que servem na Casa de Deus têm a visão afinada com a do seu Senhor. Representa, acima de tudo, segurança – tanto para quem presta contas como para quem são prestadas as contas. Isto porque, caso o mordomo planeje executar o serviço de outra maneira que não aquela estipulada – ou seja, fora da visão – a tempo do erro ser evitado.

Ao final da parábola, vemos que o mordomo conseguiu corrigir o erro “e louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente”. Jesus, então, sintetiza a importância da prestação de contas em uma frase: “Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. (Lucas 16: 10)”.

Creio que a prestação de contas, que nada mais é que o relatório periódico feito por parte dos agentes de governança a quem os elegeu, nomeou ou contratou, é algo difícil a se cumprir. Poucos são aqueles que gostam ou aceitam ser avaliados. Bem por isso, é necessário obedecer a quatro princípios para que a prática não seja diferente da teoria:

  • Faça ou exija a prestação de contas com periodicidade;
  • Defina os critérios e repita-os consistentemente a cada avaliação;
  • Dê continuidade à prestação de contas avaliando como o processo era antes, como está no momento e como poderá ficar (tendências e expectativas);
  • Seja preciso e tenha isso como princípio espiritual, afinal, adulteração de dados é pecado.

4. Cumprimento das Leis – Alguns líderes acreditam que, por fazerem parte do povo de Deus, estão acima das leis dos homens. Mas alegar ignorância diante das exigências da legislação atual ou justificar-se com a desculpa de que “somos uma igreja, não uma empresa”, é inaceitável. Além de não ter nenhuma base bíblica é o pior exemplo de uma igreja que não vive dentro do contexto atual.

Também não é conveniente ou correto a justificativa que determinada lei não está sendo cumprida porque na Europa, por exemplo, é diferente. Se você, sua organização ou sua igreja estão no Brasil, são as leis daqui e a nossa realidade que direcionarão seu comportamento. Esse é um raciocínio lógico sem contra-argumentos. Pior ainda é o argumento falacioso que ouço às vezes por aí. Alguns encadeiam o raciocínio que se fosse proibida a pregação do evangelho por força de lei não deixaríamos de pregar, e,  portanto, nem toda a lei deve ser cumprida – justificando assim o desrespeito à ordem legal estabelecida.

Ainda fazendo menção à parábola de Lucas 16, no verso 8, o rico senhor lembra ao seu mordomo que “os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz”. É uma palavra dura, mas que retrata a situação de boa parte das igrejas quanto à condição legal do exercício de suas atividades.

Para cumprir as leis, um líder deve observar de maneira preventiva e perspicaz as implicações legais de todas as decisões tomadas e transações realizadas em sua igreja. Afinal, como Paulo escreveu aos irmãos da igreja de Corinto “zelamos do que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens” (II Coríntios 8:21). Perante o sistema jurídico brasileiro, o “não cumprir por ignorância” não é válido, por isso, melhor se precaver buscando uma boa assessoria legal. Isso é ser responsável.

5. Ética - É a definição dos valores que regem o comportamento dos integrantes da igreja ou da organização, codificada em um Manual conhecido de todos, observando-se seu respectivo cumprimento. Evidentemente, tanto os valores como o código têm de estar baseados na Palavra.

Em geral, recomenda-se que um código de ética aborde objetivamente aspectos internos e externos dos relacionamentos entre os diversos participantes da organização.

Nos aspectos internos, pode-se abordar as interações dos componentes da organização com seus pares, autoridades estabelecidas, outros departamentos ou ministérios internos. Nos aspectos externos, pode-se estabelecer as interações com pessoas e órgãos públicos, fornecedores de bens e serviços, meio ambiente, outras igrejas evangélicas ou não, sindicatos e associações e partidos políticos.

Independentemente de um código de ética escrito, toda a organização tem sua ética estabelecida. Neste ponto, acho importante diferenciar o que é ético, o que é moral e o que é legal. Ética relaciona-se ao ambiente mais imediato da organização ou da igreja, como seus padrões de comportamento, política, valores, relacionamentos e tomada de decisões. Já moralidade baseia-se num padrão absoluto – a Bíblia. Por último, legalidade refere-se em uma lei codificada.

De maneira simples, se alguma coisa é ilegal, é porque está violando a lei. Se for imoral, é porque não está em conformidade com algum padrão bíblico. Se for antiético, é porque está em desacordo com práticas e padrões aceitos na comunidade mais próxima. Podemos ter diversas situações resultantes da combinação desses fatores. Por exemplo, situações ilegais, mas que não são imorais. Situações éticas, mas ilegais. Situações imorais, eticamente aceitas na comunidade. Esses são apenas alguns exemplos. Nosso alvo é o de alinhar nossos padrões éticos aos valores morais bíblicos e à lei codificada que nos rege perante nossas autoridades públicas.

Em tempos de grande prosperidade financeira e muita ganância, precisamos adotar medidas mais rígidas como bons mordomos de Cristo.

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