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Estratégia e Planejamento

A Igreja e o Brasil

Ao ler o Relatório Síntese de Indicadores Sociais formulado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) dos anos de 2002 e 2004, deparei-me com uma situação socioeconômica de proporções assustadoras e desafiadoras. As mais de 300 páginas de cada relatório trazem em si alguns indícios de melhora na qualidade de vida dos brasileiros, mas, como poderemos constatar a seguir, muito aquém de nossas potencialidades como nação.

Vivemos em um país de 180 milhões de habitantes desesperados na busca da sobrevivência. Tudo começa com a esperança de vida ao nascer. Em nosso país, 216 crianças com menos de 1 ano morrem por dia. Países desenvolvidos não atingem 6% dessa mortalidade infantil. Acima dessa idade, 14,3% dos óbitos não tem causas definidas, chegando ao extremo no estado da Paraíba de 46,5% sem definição da causa-mortis. Já dos homens que morrem, 20% são por causas violentas, com grande concentração na faixa etária de 15 a 29 anos. Na cidade do Rio de Janeiro tem-se 255 óbitos nessa de jovens que morrem ao ano a cada 100.000 habitantes.

No campo da família, nossos números registrados apresentam um índice de 35,58% de separações judiciais e divórcios feitos com o marido na idade média de 36,1 anos e a mulher com 33,6 anos. Esse casal que se separa ficou casado em média 10,5 anos. Uma das conseqüências é 13,8 milhões de famílias onde a mulher é líder solitária para decisões e renda, representando 27,3% do total de 50,4 milhões das famílias brasileiras. Em Belém, por exemplo, o número das mães solitárias chega a 40,4% das famílias daquela cidade. As mulheres entre 15 e 17 anos que tem pelo menos 1 filho representam 7,3% do total dessa idade, sendo que Fortaleza, por exemplo, chega a ter 9,3% de adolescentes que já são mães.

Já no campo da educação, os desafios começam com a marca de 15 milhões de pessoas de acima de 15 anos que declaram não saber ler e escrever. Do total de adultos, 27,3% tem menos de 4 anos de estudo escolar. No Nordeste esse número sobre para 42,8% de adultos com baixa escolaridade. A população economicamente ativa apresenta uma média de 6,7 anos de estudo, ou seja, não completou o ensino fundamental.

O contexto social conduz a uma situação econômica que obriga o trabalho infantil (10 a 14 anos) de 12,9%, sendo que no Maranhão, por exemplo, é de 27,2%. Em paralelo a isso, 12,5% dos jovens entre 18 e 24 anos não conseguem acesso ao primeiro emprego, acima da taxa geral de desemprego nacional de 6,2%. Daqueles que estão empregados, 40% não tem carteira de trabalho, refletindo a economia informal do país. Dos assalariados, 50% ganha até 2 salários mínimos, sendo que no Nordeste 16% vive somente com meio salário mínimo. Para complicar mais ainda a situação, 50% dos mais pobres tem rendimento total equivalente a 1% dos mais ricos.

Essa realidade econômica do brasileiro conduz à marca de 7,2 milhões de moradias faltantes para as famílias. O quadro dos domicílios existentes não é dos melhores, pois 38% das residências tem um saneamento inadequado, sendo que a Região Norte do país 89% está inadequado. Ao todo, existem 9,5 milhões de domicílios com fossas rudimentares ou que jogam os dejetos diretamente em valas, rios, lagos ou no mar.

Estima-se que 23 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de indigência, o que equivale dizer que 13,13% da população tem renda inferior ao valor de uma cesta de alimentos que permita a ingestão de 2.100 calorias diárias. Não é sem razão que existem 170.000 detentos em 512 prisões representando um dos 10 maiores sistemas penais do mundo, que cresce à taxa de 6% a.a.

Com tantos números, que representam ainda tão pouco do desafio Brasil, a medição do Índice de Percepção de Corrupção dos Indivíduos nos traz a nota de 3,9, levando-nos à posição 62, dentre 151 países analisados, onde a nota máxima atingida foi de 9,1. Ou seja, fomos reprovados na prova da corrupção.

Na tentativa de se sintetizar essa realidade, as Nações Unidas adotaram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desenvolvido por um economista paquistanês que formula a partir de indicadores de Educação, Longevidade e Renda, colocando o Brasil está na 63ª colocação no ranking do IDH de 2005 (em 177 países no total), com um índice de 0,792 (médio desenvolvimento humano).

Essa realidade deve afetar-nos como Igreja de Cristo, pois nossos púlpitos não podem desconsiderar a realidade intelectual e social daqueles que queremos atingir. Deve afetar a intensidade e perseverança de nossas orações pelos governantes e pelo povo tão sofrido. Deve afetar nossa ação e responsabilidade social, pois não podemos viver um evangelho alienado dessa carência exposta diante de nossos olhos. Deve afetar nossa agenda e determinação de nossas prioridades financeiras que, vez por outra, caminham para imobilizações em templos e estruturas suntuosas. Deve afetar a formação e mobilização de nossos líderes, não apenas para um comportamento proselitista, como que se números de membros afetassem nosso galardão celestial, mas impactando a qualidade, profundidade e abrangência de nossos serviços, compartilhamento e comunhão práticas. Deve afetar nossa estrutura mental moderna, muitas vezes egoísta e egocêntrica, ensimesmada e consumista, para a estrutura neotestamentária altruísta e comunitária.

Se toda a estratégia de qualquer organização deve priorizar o conhecimento e atendimento de seu público alvo, eis aqui muita razão para repensarmos nossa maneira de operar e tomar decisões sobre o caminhar da Igreja no Brasil.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com.

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